Esse blog é sobre a história da minha família, o meu objetivo é desvendar as origens dela através de um levantamento sistemático dos meus antepassados, locais onde nasceram e viveram e seus relacionamentos inter-familiares. Até agora sei que pertenço as seguintes famílias (nomes que por vezes são escritos de forma diferente): Ramos, Oliveira, Gordiano, Cedraz, Cunha, Carvalho, Araújo, Nunes, Almeida, Gonçalves, Senna, Sena, Sousa, Pinto, Silva, Carneiro, Ferreira, Santos, Lima, Correia, Mascarenhas, Pereira, Rodrigues, Calixto, Maya, Motta…


Alguns sobrenomes religiosos que foram usados por algumas das mulheres da minha família: Jesus, Espirito-Santo...


Caso alguém tenha alguma informação, fotos, documentos antigos relacionado a família é só entrar em contato comigo.


Além desse blog também montei uma árvore genealógica, mas essa só pode ser vista por pessoas que façam parte dela. Se você faz, e gostaria de ter acesso a ela, entre em contato comigo.

terça-feira, 29 de abril de 2014

História da Minha Vida – Fita 2, Lado A

 

Meu bisavô Hildebrando Cedraz (Pequeno) gravou diversas fitas, algumas com músicas (ele adorava tocar violão e cantar) e outras contando a história da vida dele. Consegui encontrar algumas dessas fitas e vou postar aqui. Para quem quiser ouvir é só conferir o audio abaixo, mas também coloquei a transcrição (vez ou outra é difícil de entender o que ele fala, então me desculpem se houver algum erro).

Obs: Uma parte das fitas já está no 4shared caso alguém queira baixar para ouvir http://www.4shared.com/u/h2WAH_c2/luanaoliveira.html

“… Essa fita é a segunda da minha história, que alias na primeira eu me esqueci de botar a data, foi no dia 28/10/1989. E essa hoje é 04/11 também do mesmo ano 1989, que alias na primeira fita eu fui muito adiante, pra 1926, pra os revoltosos, que alias os revoltosos foi no fim do ano, foi errado, mas eu vou agora chamar pra 24, os acontecimentos que houve da história da minha vida, era ante-vespera de São João, eu estava em Coité, que as festas de São João do Coité eram muito animadas, etc, cheia de fogos, fogueira, muitas fogueiras. E eu lá estava quando recebi o aviso que minha avó paterna, a mãe de meu pai havia falecido (Maria Joana Carneiro de Oliveira), mandaram me chamar, isso já no dia 23. Então eu me preparei e toquei pra lá, arranjei na farmácia uns calmantes, porque minhas duas tias tavam lá, eu tinha que tomar providência. Passei no Rio das Pedras, peguei minha mãe, meu pai estava em Jacobina quando a mãe dele morreu. Eu então fui com minha mãe, o Rio Tocó tinha muita água, passamos com água na barriga dos animais, porque nos poços espalha muito e tal. Chegamos lá na Queimadinha os carregadores do caixão, pra Riachão, porque nessa época era dificil um cemitério, Riachão, Coité, Serrinha, longe, muito longe. Tinha que levar esse caixão pra lá. Então os carregadores estavão almoçando, eu cheguei, as duas velhas, as minhas tias, principalmente a Antonia, chamava tia Totonha, muito nervosa, eu dei os calmantes a ela, 20 gotas de coralina cada uma, minha mãe ficou acalentando, etc e tal. Eu fiquei ali até qaundo os rapazes descansaram um pouco, fui assisti passar o caixão no rio, ai era um pouco fundo, os homens mais altos dava a água no peito, e até que passaram o caixão, graças a deus, eu assisti. Quando eles seguiram eu voltei pra ficar com minhas tias, tavam muito nervosas, chorando, fiquei com elas durante o dia 23, daí a noite pro dia 24. Quando amanheceu o dia 24, já tava todo mundo calmo, deixei minha mãe e voltei. Fui pra Coité, cheguei lá, tinha minha namorada Idália, essa dona Idália, que eu era muito apaixonado, ficou triste por causa da festa, eu saí no dia 23, mas a fogueira de meu futuro sogro era dia 24, ai pronto fiquei, eu fiz a festa de 24 pra 25. Quando foi dia 25 voltei de novo a Queimadinha, fui ver como é que ia, e tudo em paz eu trouxe minha mãe.

Ai, chegando aí continuou, quer dizer Conceição do Coité nessa época era a maior festa que tinha era páscoa, aleluia, então quando, nesse tempo aleluia era 10 horas, rompia ás 10 horas. E isso tinha muita festa importante, muita alegria, muitos caretas na rua, aquela mulequeira, tinha bumba meu boi, tinha outras pessoas arranjavam jumentos com peitorais de guizos, e burrinhos e tudo correndo, pra cima e pra baixo aquela zuada, e a cavalhada, o pessoal que tinha seus animais bons, botavam pra esquipar ali, e eu no meio também com meu cavalo bom, ai esquipava cada qual com seus arreios mais bonitos, cheio de fantasias, de bombas, de metais, de tudo. Era uma coisa importante naquela época, o sábado de aleluia. dava meio dia, eu ia descansar, almoçar, os animais descansavam. Três horas saia de novo até de noite, não tinha luz, era o lampião. Lampião só dava pra clarear pra os cascudos e as mariposas, mais nada, não adiantava nada. A noite ia ter apenas o Judas, a queimação do Judas, meia noite, tinha o testamento, era muito importante, muito bem feito, o Judas dando, cada um herdando uma parte, do que ele dava, todo mundo achando graça daquilo, muito bom, foram muito bem feitos.

Então era nessa época porque o coité começou, a primeira turma foi aqueles velhos antigos, que nada resolveram e tal, quando a segunda turma já foi um povo que pelo menos fundaram a sociedade musical, fizeram a filarmonicazinha e tal, coisa muito boa. Melhorou muito. A época muito pobre, Coité era muito pobre. Então a terceira turma foi a minha, que me pertencia também, a nossa juventude, que Conceição de Coité de 19 até 25 foi a época da elite de Coité. Quer dizer que essa turma de rapazes e moças todos os domingos cada qual vestia sua roupa mais decente, as moças tudo bem trajadas, e os rapazes também. Quando era branco era branco mesmo, até o sapato. Assim queima era queima, em tempo de inverno era roupa azul marinho, roupa quente de lã e etc e tal. Aí era um luxo, coisa importante mesmo, de 1919 a 1925. Foi a fase que o coité passou, a fase de uma elite, uma coisa muito importante, muito decente, era a época da gravata, do sapato e meia, chapéu. Essa decencia toda do povo, e as moças também bem vestidas. E eu e prf. Sizenando, todos os domingos, ele tinha um violão e cantava, e eu tinha um cavaquinho, todos os domingos às 3 horas da tarde, nós ficavamos tocando ali na casa da mãe dele, de Dona Filó, era muito querida de todos, sala grande. Formava um forrozinho ali todo domingo ali, eu e ele faziamos isso. Bom e nisso a gente foi passando aquela fase muito importante. Foi quando também morreu a velha que tinha lá no Rio das Pedras, que era mãe do vaqueiro, do Paulino, chamava-se Filipa. desde quando meu pai casou que ela acompanhou, ficou com eles, que aquela velha tinha sido das escravas, velha muito boa, velha gorda, forte, morreu a velha e veio pra trazer pra Coité, foi o maior sacrificio, eu acompanhei, oito rapazes pra trazer essa velha aqui pra coité, não foi brincadeira não, uma coisa triste. Suavam, oh nossa senhora, pra poder nessa areia do descansador foi uma coisa, foi difícil mesmo, mas chegaram coitados, suados, tudo mole, ficaram uma semana estrompados. Fizemos o sepultamento e tal, voltei e coisa e tal, fui levando, e isso em 1924, nessa fase ai.

O mais eu já contei a história na primeira fita, que eu levei para lá para a frente, que não devia ter ido, o negócio dos revoltosos, os revoltosos foi no fim do ano de 26.

Mas eu, quando foi 1925, eu era vaqueiro e tinha um cavalo muito bom, cavalo que veio da fazenda da Ipueira, dizendo que não precisava mais, o cavalo tava fraco, lá só comia alecrim, aí botei no pasto e o cavalo renovou, ficou uma coisa muito importante. Então em 25 eu fui pegar uns garrotes para botar no capim, eu e o paulino, nós dois, o garrote, dizem que boi manso é que dá cornada segura, é verdade, um boi me lembro até pintado de preto, trouxemos devagar, botamos o cambão e trouxemos, eu não tinha feito curral lá na porteira do pasto, lá no Caldeirão, então botamos o boi pra dentro, e eu fui botar meu cavalo distante umas 10 braças, no meio do pasto, pra evitar que o boi prejudicasse meu cavalo. Pois fui botar o cavalo no lugar de morrer, uma coisa triste, ele era bom laçador, laçou logo o boi ali encostado na porteira, ele ficou segurando, quando eu encostei pra tirar o cambão do boi, o boi tirou o corpo de banda, tomou a corda no fio do lombo e foi matar meu cavalo. Deu uma chifrada no cavalo, o cavalo saiu relinchando com a perna pra cima e sangue pra todo canto, e ele rodou, correu, veio pra de junto da porteira, o sangue descia como água numa bica. Coisa fora de, mesmo na artéria, na nádega do cavalo, uma coisa que, oh minha nossa senhora, não levou uma hora vivo coitadinho, esgotou o sangue todo, eu tirei os arreios, eu chorei muito, chorei quando vi meu cavalo morto, é verdade. E pensei em matar o boi, mas era besteira, não adiantava, o prejuizo era maior. Fomos procurar o boi no canto da cerca, lá pegamos, não deu mais trabalho nenhum, tirei o cambão, só foi mesmo pra matar meu cavalo. Então com isso eu fiquei triste, nunca havia tido uma ferra, desde 1920, o gado era pouco, muito espalhado, de sociedade eu com o Paulino, cada um faz um mourão, ai de quatro um. Afinal de contas que eu fiz aquilo mesmo pra poder satisfazer meu pai, que ele vivia falando noite e dia que o gado estava abandonado mesmo. Então foi quando eu fui ao Coité, comprei um outro cavalinho, um cavalinho castanho, precisava pegar o gado pra ferrar, isso foi de 25 pra 26, logo no principio de 26 juntamos o gado todo e pegamos o gado que tava pra ferrar, prendemos e houve a ferra. Eu tirei 12 reses, ele não tirou nenhuma porque já tinha vendido, vinha vendendo, era homem que tinha um vicio grande do baralho, vendia a cria barata a meu pai e acabava jogando baralho. De forma que eu tirei 12 reses, ai pronto, faltaram 2 garrotes do gado pra ferrar, os dois garrotes sumiram, tivemos a noticia que tava na dormida robando no pasto de um velho. Fomos lá e eram os garrotes mesmo, ai procuramos, saimos pra prender no sitio de compadre Sinhô, lá correu, nós tomamos um, fomos prender da lagoa no curral de Joãozinho Guimarães, deixamos lá, voltamos e pegamos o outro no compadre Tinô, já aí o cavalo tava adoentado, eu senti o cavalo não dava mais nada, digo esse diabo não presta não, mas não pensei que o cavalo tivesse acontecido qualquer coisa, apanhamos o outro boi lá, cambão, ele não atalhava nem o boi de cambão mais, quando cheguei em casa e tirei a sela o cavalo deitou, esperou, no outro dia amanheceu morto. Oh meu deus, não quero mais negócio como vaqueiro não, tá aconcecendo com meus cavalos e pode virar pra mim, não quero mais nem saber. Veio o (Agapito?) eu entreguei o gado a (Agapito?) todo, também o Paulino não quis mais nada também, logo que eu deixei ele também deixou. Ficou foi esse gado eu fui mostrar a (Agapito?) todo no mato, rodiando lá pelo mato, mostrando a ele como é e tal. Ele tinha um companheiro um amigo lá, o Abraão, lá dos Poços, vaqueiro também, vinha ajudar ele, isso ai já foi em 1926.

Quando de fato aconteceu o negócio dos Revoltosos, já foi no fim do ano, já como eu comecei a contar na primeira fita mais, adiantei, agora eu vou continuar. Foi quando o Nezinho, meu futuro sogro foi com a família pra Serrinha, mandou dizer que era pra eu ir pra lá com os velhos também, mas como o Motta tava com a familia no Rio das Pedras também, não era possivel, eu achei que era muita covardia minha eu deixar esse povo ai sozinho, então ficamos, aguentando, mamãe com o terço na mão com as meninas rezando as orações, pedindo a Deus Nossa Senhora, graças a Deus foi salvo porque o Mota queria ir pra caatinga, choveu muita chuva, mas não não vai ninguém não, fica tudo aqui dentro de casa, não vamos ficar aqui no bolo, afinal de contas como eu já disse que 24 foi até Alagoinha, daí foram pra Santa Clara (de Eustorgio?), daí pra Coité. Graças a deus nós ficamos livres, não passaram no Rio das Pedras. Então passado uns quatro ou cinco dias soubemos que os Revoltosos tavam mudando para a Salgada, Nezinho tava com o povo em Serrinha, eu tava com a cabeça ardendo porque ai meu deus minha namorada, oh minha nossa senhora, minha Idália, tava lá num vejo, ai quando eu soube que tava mudando pra salgada peguei o cavalo pra ir, o Motta ‘Mas pra onde é que você vai?’, ‘Vou à Coité’, ‘Há eu vou também’, ‘Não, fica ai não vá’, ‘Vou, vou’, mandou o Marquinho pegar uns dois animais. Chegando no Juazeirinho, logo depois de Juazeirinho tem aquela casa com coisa de (…), cumpadre Joaquim Mendes ‘Compadre, não vá não compadre que tão tomando, ainda hoje eu tive notícias que tão saindo o resto que tem, não fica um cavalo que chega, tomam tudo’, ai nós voltamos. No outro dia eu digo, ‘não, eu vou saber noticias sim’, ai ‘eu vou também’ o Motta, que homem teimoso. Ai tocamos, quando chegamos na (…) eu digo ‘olha Motta, vamos fazer o seguinte, vamos deixar os animais aqui, vamos mandar Marquinhos ir lá sondar, tira as esporas dos pés’, e vai sondar. ‘Não, vamos embora, nada’. Quando chegamos na casa de Vespasiano, dona Glorinha, meu deus do céu, ‘Arrudeia os animais ligeiro que tão tomando!’, aí arrudiamos pro muro e ela abriu um quarto lá no fundo e nós empurramos os animais, trancamos dentro do quarto e ficamos lá escondidos, já os homens tavam na porta da frente procurando cadê os animais, dona (…) disse tá no de Estógio, eu só tinha trazido os cavalos velhos, umas éguas, e se tapio esses homens lá e salvamos nossa situação, foi quando deu de tarde, já tinham viajados todos, eu digo ‘agora eu já soube que Nezinho vem ai que o Joaquim foi com o carro-de-boi buscar em Salgada, eu vou encontrar, o sr. volta’, ele voltou pro Rio das Pedras, eu fui pra Salgada. Encontrei justamente eles do Almeiro Dantas pra cá um pouco. Água na estrada, vinha o carro-de-boi com os meninos, Nezinho com dona Olympia, Idália com Iêda no braço. Aí Nezinho: ‘Ei, ainda sobrou esse!’, ‘Não foi lá não e graças a deus e tal’, ai me deram a menina, no cabeçote vinhemos e graças a deus tudo mais ou menos em paz. Isso foi já no fim de 1926, mas houve o casamento de Nery antes disso.

Nery era noivo, e no dia 18 de setembro foi o casamento de Nery, antes dos revoltosos, eu tinha passado por essa história. O casamento de Nery com Otília, secasaram e tal dia 18 de setembro e foram embora daí a dois dias, depois foi que veio esses revoltosos em 1926. O ano de 24 e 26 foi cheio de muita coisa.

Então depois de 26, depois dos revoltosos, então o Motta ficou por ali e foi que eu resolvi a pedir a Dr. Motta pra fazer o pedido de minha namorada, a Idália, eu passar a noivo. Então fez o pedido um dia depois do almoço, ele falou com Nezinho, Dona Olympia sentada alí e tal, tava nós cinco, dona Dida, minha irmã e Motta, falou, Nezinho demorou um pouco de me responder, eu esperava a resposta imediata, aí eu me irritei fui pra varanda, ele me acompanhou, ‘Não, tá tudo certo, eu tô satisfeito e tal e tal, muito bem, você que marque quando quer casar’, eu digo ‘não, não é esse ano, é para o ano, esse ano não’. Ai ficamos, isso foi terminou o ano de 26, passei a noivo, e daí então fui cuidando, me prepará mais ou menos, trabalhando, que eu trabalhava muito na roça, era muito disposto, fazia tudo para ter meu recurso, minha independência, eu já tinha um gadinho, em 1926. 

Veio 27, então o Motta tinha levado Aloysio para Miguel Calmon mas, mas deu um trato que porcausa daquele surto, eu já contei a história. Então Aloysio ficou coitado sem saber o que é que fazia, eu fui lá passeiar pra dar um, ver se animava ele um pouco. Lá coitadinho ele com o resto de farmácia, porque Motta partiu, vendeu a metade dele a Arnobio Meireles, e deixou ele encravado. Miguel Calmon era uma praça fraca, mas Aloysio queria que eu fosse pra lá, pra negociar mais ele, comprar uma loja de tecido, mas era um comércio ruim, eu voltei mais ou menos certo, porque eu tinha comprado os animais do Motta, todos os animais, animais ruins, o diabo e tudo. ‘Eu vou vender meus animais pra apurar um dinheirinho’, chamei compadre Miguel, toquei pra Feira de Santana mais ele, vendemos, ficou com um cavalo só, fomos para Santa Bárbara, com o cavalo melhor que eu tinha do lote, cheguei em Santa Bárbara vendi o cavalo, vinhemos dormir aí pro lado do Candeal, na fazenda dos Cordeiros, que era negociante de animais, muito amigo de Compadre Miguel.

Tivemos por aí, no outro dia, amanheceu o dia saimos, passamos no Ichú. No Ichú tinha umas quatro casas, nem a capelinha não tinha ainda, isso foi 1927, então aí, a estrada passava justamente onde está a igreja hoje, era ali, e ia voltar pro umbuzeiro, lá onde eu contrui o matadouro, lá na oficina de Tetê, lá ele voltava para o umbuzeiro, uma volta grande pra entrar no Ichú porque era o cercado. De forma que vinhemos e eu chegando ai, depois de pronto o velho começou a falar, botar, lamentar porque eu ia sair e tal. Eu digo, como é um dia de domingo de manhã, ô meu pai, como é que vai ser? Aloysio tá me esperando coitadinho, deixa eu ir. ‘Mas meu filho, e tal…’, eu digo, ‘Olhe, eu não indo pra Miguel Calmon eu vou me casar, hein, e onde eu vou morar? Eu vou morar em Coité, vou alugar uma casa e vou morar lá’, ‘Não, você divide essa casa aqui’, ‘Não senhor, muito obrigada, não dá certo não, a moça quando casa quer ser dona de sua cozinha, fundo da casa com suas galinhas, se numa fazenda é o que tem, que elas tem a sua distração, e panela que dois mexe ou sai insosso ou salgado, aqui é minha mãe, não dá certo não senhor’, ai eu digo ‘Eu vou construir uma casa, comadre Rola você me vende aquele material daquela casa velha do saco do cipó?’, ‘Panhe pra você!’.

Tava pra cair tudo, fui lá juntei os rapazes e tiramos as tenhas com todo o cuidado, desmanchamos tudo, João Paulino que morava lá passou pra morar na casa da farinha, tava segura a casa. Tirei o material todo, arranjei um carro-de-boi, botei o material todo pra cá e arranjei um rapaz, o Antonio Cordeiro, pra fazer o adobe, era um bom adobeiro, botei mais dois rapazes carregando água, dentro de poucos dias deram pronto. Dois ou três milheiros de adobe e eu chamei Eleodoro mais o Tonho de Gulhermina, dois carpinteiros bons, armamos a casa, cobrimos. Fui no Coité, consegui dois pedreiros, era o Nininha e o Marciano, foram pra levantar as paredes, lá empleitamos pra me dar a casa atijolada e caiada, prontinha, aí eles pegaram, era três homens de casa, pegaram por quinhentos mil reis, eu dando o ajudante, e eu ajudando também. Aí, dentro de poucos dias foi pronta a casa, marcamos o casamento pra novembro. Quando foi, já terminando o serviço da casa, me sai um panarício aqui nesse dedo aí esse panarício aí me desorientou, eu fui pra Serrinha, pra Dr André rasga, Dr André mandou um estudante, cunhado dele, Dr Aderbal rasga, meteu o canivete mas não fez o serviço bem feito. Eu de lá vim pra Coité, sofri, esse dedo foi uma coisa horrível, eu passava a noite toda andando pra cima e pra baixo, meu deus, agarrado no dedo, meu deus, meu deus, até que, o dedo tava uma coisa feia, pedia a Vespasiano, era o dono da farmácia, Aloysio já tinha vendido a ele: ‘tem um bisturi aí? Abra aqui pra frente que o carnecao tá aqui pra frente’, ‘Não, não abro’, ‘Me dê esse bisturi aí!’, Me deu, eu peguei, abri pra frente com minha própria mão, porque não tava brincadeira não. Ai coloquei uma espatulazinha feita de páu, lavei com álcool e tudo, suspendi e arranquei o carnecão, uma coisa monstruosa, e eu botava esse dedo no minimo assim no buraco e dava certo. Cheguei em casa mostrei e a turma tava lá na sala, Nezinho com a turma toda, eu digo ‘Olha pra isso aqui!’, vixe, todo mundo tapou os olhos pra não ver. Mas eu, ai meu deus, eu perder meu cavaquinho, como é que eu faço pra tocar meu cavaquinho com esse dedo, ô meu deus. Aí vamos mudar o casamento, não pode ser em novembro, mudamos pra abril de 28. Ai fiquei, foi quando sarou o dedo.

Quando foi no dia 18 de abril de 1928 houve o meu casamento, que eu tinha a intenção de me casar no dia do aniversário de Aloysio, dia 14 de abril, porque ele casou na véspera do meu aniversário, dia 8 de junho, mas aconteceu que era um dia de terça-feira e nós mudamos pra sábado, dia 18, graças a deus não convidei ninguém, ninguém para o meu casamento. Meus maiores amigos eram compadre Augusto, não convidei ninguém, digo se eu convidar um eu tenho que convidar os outros, eu não quero dar despesa, isso aí é bobagem, eu quero é me casar com a moça, aí apenas arranjei a casa que foi de dona Filó, aluguei, preparei, três dias antes levei meu pai, minha, mãe, Iaiá e comadre Rola pra lá. A vespera de meu casamento foi feito lá um almoçozinho, e ficamos naquele movimento ali, de uma casa pra outra, até que no sábado houve o casamento, graças a deus, tudo em pas. A minha testemunha foi Iaiá, agora o homem eu não me lembro quem foi não. Eu sei que o casamento civil foi em casa, era o Dr Domingos Carlos o juiz pretor quem fazia o casamento em casa. Eu tinha pedido seu Motta e Ageu pra serem testemunhas, como de fato foram. Tinha poucos, Nezinho não convidou ninguém também não, pouca gente, pouca gente, Calixto, essa gente, esse povo, e pronto, pouca gente que tinha, só os irmãos dele, não tinha mais ninguém, eu não convidei também. Isso houve o casamento tal, o jantar etc e tal à noite. Pronto, no outro dia de manhã Idália disse ‘sabe de uma coisa vamos embora hoje, vumbora, vamos embora para o Rio das Pedras’. Falou com mamãe, dona Olympia, falou com Nezinho (…) amanhã, segunda feira eu mando o vaqueiro levar a bagagem. Aí nós vinhemos logo no domingo, dormimos no Rio das Pedras, do velho, nós estavamos sem cama na casa, na nossa casa, no outro dia, meio dia já Joaquim chegava com o carro e tudo, eu fui armar a cama, ajeitamos tudo graças a Deus, passamos pra nossa casa, ali foi 1928, tinha feito um roçadinho, plantei, trabalhei que ave maria, me acabei de trabalhar esse ano. Plantei o roçadinho, o ano não deu, o inverno foi ruim eu digo ‘pronto cumpadre Augusto, como é, que ano eu me casei!’ e ele ‘ vai ser melhor compadre, a gente acostuma logo com o que não presta’, aquele compadre Augusto era engraçado ai eu digo muito bem, passou e tal, Deus me ajudou, eu não sei como é que eu arranjava não, Deus me dava. No fim de 28 fiz um roçado acima da baixa do Jatobá, descendo ali, beirando a estrada, de 16 tarefas, cavei um tanquezinho lá, tive uma chuva, muita chuva nesse ano de 29, e o roçado ai ficou pouco terreno descoberto, pra feijão tava bom, plantei muita abobreira, quiabo, feijão de corda, tive uma safra bonita de tudo, muita fartura. Mas ai tinha alagado de água, ai eu fui, mandei capinar duas tarefas de terra na baixa lá nas terras do meu pai, plantei 40 litros de feijão curió, deu vinte sacos, ai eu entendi de fazer outro vão de casa pra fazer um depósito pra botar o feijão, porque eu não tinha onde botar, porque eu sempre guardava atrás de paiol, feijão misturado com termicida e botava num paiol. E eu, como é, eu fui procurar um pedreiro e não achei, eu mesmo fiz a parede do casa, o vão de casa que eu armei, e fiz o paiol dividido em dois, parede dobrada, eu mesmo fui o pedreiro, fiz tudo, tá lá até hoje pra quem quiser ver. E do outro lado eu fiz um caixão de farinha, botei um canto pra botar um caixão de farinha, quando foi 29, no fim do ano, eu plantei mandioca, fiz um roçadinho la no pasto do meu pai, lá na baiza do chamado os (páus ferros?) e disse, vamos plantar de sociedade a mandioca. Plantamos lá de sociedade os roçadinhos tudo de mandioca, e plantei no fundo de minha casa também que eu cerquei a partinha ali que tinha muita pinheira ali naquele agreste ali, cerquei tudo, (xilicó?), arrancando e tal, e trabelhei que não foi brincadeira, e plantei mandioca, todos os dois lugares, isso 1929. Farinha de cinco mil reis o saco, meu sogro comprou mil e tantos sacos de farinha, botou num quarto na casa de Calixto, e eu digo, não, eu vou fazer muita farinha, não vou comprar não, o dinheiro é pouco. Ai fiquei, quando foi 1930 fiz dois roçados, um do lado da Caiçara, que eu queria acabar de cercar a fazenda do Rio das Pedras, que eu já vinha lutando por lá pro lado da Quaimada Nova, vinha cercando devagar, e ai fiz o outro lado do Caldeirão, 13 tarefas ai e 6 lá, 19 tarefas, plantei milho e tal, no fim já me apertei, tomei cem mil reis a seu Jove, pra dar vinte sacos de milho, que os milhos já tava amadurecendo, eu tenho milho, quando bati, a cinco mil reis o saco eu entreguei, os vinte sacos…”                                                

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